Espetáculo no Centro Cultural resgata mito iorubá para discutir genocídio de jovens negros no Brasil
No âmbito da programação do Novembro Negro, o grupo Teatro Negro e Atitude problematiza questões ligadas ao genocídio de jovens negros no Brasil no espetáculo Àbíkú, no palco do Centro Cultural UFMG, nesta sexta, 29 de novembro, às 18h30. Léo Campos, Lucas Gonçalves e Sabrina Dourado encenam a montagem, que tem direção de Evandro Nunes e direção musical de Marcus Carvalho. O evento integra o projeto Baixo Centro En[cena], do Circuito Cultural UFMG. A entrada é gratuita, e a classificação etária é de 14 anos.
Livremente inspirado nas músicas Gênesis e Tiro de misericórdia, de Aldir Blanc e João Bosco, e Meu guri, de Chico Buarque de Holanda, o espetáculo conta a história de André, um menino que nasce da falta de diálogo entre os pais, vive em meio às desigualdades sociais do país e sem perspectivas para o futuro. À sombra de um mito iorubá (um dos maiores grupos etnolinguísticos da África Ocidental), o das crianças Àbíkú, André morre aos 14 anos, mudando para sempre a vida daqueles que ficaram.
'Nascido para morrer'
Em tradução literal “nascido para morrer”, o termo Àbíkú refere-se a crianças nascidas sob o destino de vir ao mundo, causar grandes transformações e morrer ainda na infância. O espetáculo transporta o mito africano para a realidade brasileira, contrapondo a ideia de destino, proposta pela crença, por meio da relação de causalidade, da condição social em que os personagens estão inseridos. A poética dessa história propõe refletir sobre a ética discriminatória das relações sociais e, mais do que um sentimento de revolta ou da busca por culpados, a morte de André provoca forte sensação de que, talvez, o mais importante seja o que a sociedade poderia ter feito.
O espetáculo mistura uma interpretação natural e realista, que expõe a fragilidade da relação dos pais Rosa e Dimas, a uma interpretação mais lúdica e interativa proposta a partir do nascimento de André. A linguagem estética da peça é enriquecida pela pesquisa corporal e musical das manifestações da cultura popular brasileira de matriz africana, sempre presente nos trabalhos do grupo. A encenação também faz um forte apelo popular por meio de um teatro aberto, que se vale da interatividade entre cena e plateia para uma construção coletiva do espetáculo.
'Descolonização do corpo'
Criado em 1993, o Teatro Negro e Atitude incorpora em seus trabalhos as manifestações da cultura popular brasileira de matriz africana para difusão da diversidade cultural do país. O grupo investiga textualidades, corporeidades e musicalidades existentes na cultura afro-brasileira e seu emprego no fazer teatral, em processo entendido como ‘descolonização do corpo de ator’.
O intuito do grupo é conceber espetáculos teatrais de alto nível estético e grande relevância sociocultural para compartilhar os resultados de sua pesquisa e horizontalizar o acesso à informação sobre a cultura e história do negro no Brasil e o combate ao racismo.
