Meio Ambiente

Programa apoia municípios mineiros no enfrentamento da crise climática

'Climativa' une UFMG, governo de Minas e Embaixada da França; 12 cidades de até 100 mil habitantes vão receber suporte para elaborar planos locais de ação

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Natália Aguiar Mol: saber das comunidades é pilar do processoFoto: Jebs Lima | UFMG

O Programa Climativa, do Governo de Minas Gerais, que vai apoiar 12 municípios com até 100 mil habitantes na elaboração de seus Planos Locais de Ação Climática (Plac), foi lançado em cerimônia realizada na Reitoria, na tarde de sexta-feira (29). Participaram do lançamento, além da reitora Sandra Regina Almeida Goulart e pró-reitores da UFMG, autoridades estaduais, representantes da Embaixada da França, especialistas da área ambiental e gestores municipais.

A metodologia do programa foi apresentada pela professora Natália Aguiar Mol, do Departamento de Urbanismo da Escola de Arquitetura. Segundo ela, o objetivo é oferecer uma ferramenta de planejamento simples, acessível e participativa. “O plano de ação climática é um instrumento inicial e fundamental de conhecimento do território. Ele permite que o município identifique os problemas e priorize ações concretas para se preparar para os desafios da crise climática”.

A iniciativa é resultado de parceria firmada em 2024 entre a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), a UFMG e a Embaixada da França no Brasil.

Diagnóstico e ações
Os municípios participantes foram selecionados mediante critérios técnicos estabelecidos em edital, como grau de vulnerabilidade climática, distribuição geográfica, diversidade populacional e representatividade de diferentes biomas. “O saber das comunidades é um pilar do processo: quem vive o território entende melhor seus desafios”, acrescentou Natália Mol.

A plataforma digital desenvolvida pelo projeto organiza o trabalho em duas grandes etapas. O diagnóstico do território consiste na análise de riscos climáticos, estudo de dados públicos e imagens digitais, além de oficinas com moradores. A outra etapa, complementar, se refere à definição e priorização de ações, e é orientada por um catálogo com 250 ações distribuídas em 22 temas, como agricultura, defesa civil, saneamento e mobilidade. A ideia, como explica a professora da UFMG, “não é entregar um plano pronto, mas capacitar técnicos municipais para que conduzam todo o processo, construindo soluções próprias.”

Processo participativo
O desenvolvimento do Plac prevê a realização de oficinas comunitárias em diferentes distritos, com a participação ativa da população. Após o levantamento dos problemas, as ações sugeridas pelo catálogo passam por um processo de priorização com os atores locais, permitindo que os municípios estabeleçam medidas factíveis. As ações são registradas em fichas personalizadas e detalhadas, com objetivos, prazos, locais de aplicação e responsáveis pela execução e monitoramento. 

A experiência de construção da metodologia contou com a colaboração de municípios-piloto como João Monlevade, Curvelo, Piranguçu, Três Pontas, Guaxupé e Turmalina. O cronograma prevê a elaboração dos planos ao longo de 2025, com capacitação de técnicos municipais, visitas de campo e audiências públicas. “É um grande esforço de logística e mobilização, mas também uma oportunidade única de levar a universidade para perto das cidades, construindo conhecimento aplicado com impacto direto na vida das pessoas”, concluiu Natália Mol.

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Anderson Cabido ressaltou a necessidade de se criar mecanismos de governança territorial
Foto: Jebs Lima | UFMG

Caráter estratégico
O prefeito de Congonhas, Anderson Cabido, reforçou o caráter estratégico da iniciativa e a importância do diálogo com as universidades, e destacou o desafio de conciliar mineração, desenvolvimento econômico e preservação ambiental. “Aproveitar esse momento de transição energética para debater justiça social e inclusão é um desafio enorme para municípios mineradores como o nosso”, disse. O prefeito também ressaltou a necessidade de criar mecanismos de governança territorial que resistam à descontinuidade administrativa. “Não estamos falando de algo de curto prazo. Precisamos de uma estrutura resiliente para que os avanços não se percam a cada troca de governo”, sugeriu.

Para o subsecretário de Gestão Ambiental da Semad, Diogo Melo Franco, o programa, ao evidenciar necessidades locais, funciona como instrumento poderoso para captar recursos, engajar comunidades e transformar conhecimento técnico em resultados concretos. A secretária de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Marília Melo, enfatizou a importância, para o programa, do Índice Mineiro de Vulnerabilidade Climática (IMVC), que mapeia os 853 municípios do estado e avalia o quanto eles estão expostos e preparados para lidar com os efeitos das mudanças climáticas. “Esse trabalho nasce para chegar à base, apoiar os municípios mais vulneráveis e avançar em políticas efetivas de mitigação e adaptação. Estamos orgulhosos de construir, junto à ciência, uma política pública sólida, que prepara Minas para enfrentar desafios como enchentes, estiagens e os impactos crescentes do aquecimento global”, pontuou.

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Vincent Nédélec: cooperação descentralizadaFoto: Jebs Lima | UFMG

O adido de cooperação e ação cultural da Embaixada da França, Vincent Nédélec, alertou que a urgência climática exige ação imediata dos gestores atuais. "Esse projeto nasce de uma construção conjunta, com apoio financeiro da Embaixada, e reforça nossa aposta em uma cooperação descentralizada e efetiva, em que a ciência está a serviço da população”, afirmou.

A reitora Sandra Regina Goulart Almeida reforçou o compromisso da Universidade com a sociedade mineira, destacando o alinhamento do projeto com o programa UFMG Sustentável, criado há cinco anos. Para ela, a iniciativa é emblemática da missão da universidade pública de produzir ciência de ponta e devolvê-la à população por meio da extensão universitária. “Esse projeto integra pesquisa avançada e entrega de resultados concretos aos municípios, construídos de forma colaborativa com governos, empresas e parceiros internacionais. A crise climática não será enfrentada isoladamente. Precisamos de alianças para construir um futuro sustentável, e a UFMG está à disposição de Minas Gerais para atuar em todas as áreas necessárias”, garantiu.

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Jaara Cardoso: urgência de um plano localFoto: Raphaella Dias | UFMG

União de esforços
A coordenadora de educação ambiental da Secretaria de Meio Ambiente de Varginha, Jaara Cardoso, destacou que o município já vinha desenvolvendo ações de mobilização em torno da pauta climática antes mesmo do lançamento do projeto estadual. Segundo ela, fóruns e conferências municipais sobre meio ambiente revelaram a urgência de um plano local de ação climática, o que motivou a inscrição de da cidade do Sul de Minas no processo seletivo promovido pela Semad. “Ficamos muito felizes por termos sido selecionados. Agora buscamos capacitação técnica e acesso a ferramentas como a plataforma climática para tornar nosso município mais resiliente diante das mudanças do clima”.

O secretário de Meio Ambiente de Belo Oriente, Sebastião Lopes de Faria, reforçou a importância de unir esforços entre municípios, universidade e governo do estado. Para ele, participar do projeto é um passo fundamental para preparar a cidade para os impactos climáticos futuros. “Estamos muito honrados em integrar essa iniciativa. Sabemos que o trabalho precisa ser feito agora para que possamos colher resultados positivos no futuro”, projetou.

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Gestores da UFMG e representantes de cidades mineiras e da Embaixada da França celebraram o lançamento do ProgramaFoto: Jebs Lima | UFMG

Matheus Espíndola